Quando a solidão vira conteúdo: a ascensão dos influenciadores da solidão

Quando a solidão vira conteúdo: a ascensão dos influenciadores da solidão

30 de Setembro, 2026

O Japão está mais solitário há 40 anos. Os dados mostram quem — e não é quem você imagina

Stephen Fonseca

(2 de Outubro, 2026)

Imagine a cena. Uma pessoa morre sozinha no próprio apartamento, e ninguém percebe por dias ou semanas. Agora multiplique isso por 76.941. Esse é o número de pessoas mortas sozinhas em casa cujos casos a polícia japonesa atendeu em 2025 — e 58.919 delas tinham 65 anos ou mais.

Mas está acontecendo algo que talvez você não espere. A solidão no Japão, medida ao longo de quatro décadas, vem aumentando — só que não entre os idosos. Os níveis mais altos de solidão aparecem entre pessoas na casa dos 30 anos e, na única medida que permite uma comparação limpa com outros países ricos, o Japão é o menos solitário de todos.

Então por que o país continua encontrando tantos de seus cidadãos mortos e esquecidos? A resposta está na diferença entre um sentimento e uma circunstância, e é aí que esta história começa.

Resposta rápida

A solidão no Japão aumentou entre 1983 e 2023, segundo uma meta-análise de 2026 com 183 conjuntos de dados. Mas o aumento se concentrou entre adolescentes e mulheres; adultos e idosos não mostraram mudança significativa. Na pesquisa anual do próprio governo, a solidão está estável desde 2021, em torno de 4,5%.

40 anos de dados, 183 estudos, uma tendência clara

Como medir algo tão íntimo quanto a solidão ao longo de quatro décadas? No fundo, você precisa de uma pergunta feita da mesma forma por tempo suficiente para que as respostas possam ser comparadas. No Japão, ela vem da Escala de Solidão da UCLA, um conjunto de afirmações formulado nos anos 1970 e aplicado desde então.

Em abril de 2026, dois pesquisadores da Chuo University, em Tóquio, reuniram todos os estudos japoneses que conseguiram encontrar com essa escala. Chegaram a 81 estudos e 183 conjuntos de dados individuais, de 1983 a 2023. Ao colocar os resultados num gráfico, viram que as pontuações subiram ao longo das quatro décadas — um retrato da crise de solidão no Japão.

A tendência resiste às objeções óbvias. Mesmo depois que os pesquisadores excluíram estudos atípicos que poderiam distorcer os resultados e consideraram apenas os que usaram a mesma versão do questionário, o aumento continuou visível. A mesma curva ascendente também aparecia antes de 2019. Ou seja, a subida já estava em curso havia décadas, bem antes da pandemia.

Tabela 1 — Onde o aumento de 40 anos realmente aconteceu

GrupoCorrelação com o anopConjuntos de dadosVeredito
Totalr = 0,428< 0,001183Aumento significativo
Adolescentesr = 0,2390,014104Aumento significativo
Adultosr = 0,0010,99822Nenhuma mudança
Idososr = 0,2240,33121Não significativo
Mulheresr = 0,5520,01220Aumento significativo
Homensr = 0,3120,18120Não significativo

Fonte: Homma & Takase, Frontiers in Psychology, 2026. Repare no pequeno número de conjuntos de dados para adultos, idosos e nas análises por sexo — a ausência de uma tendência significativa ali pode refletir baixo poder estatístico, e não uma linha realmente estável.

Porém, o aumento da solidão não atingiu todo mundo. Adolescentes e mulheres ficaram mais solitários, mas os adultos, como grupo, não mudaram nada em 40 anos. Os idosos também não mostraram mudança clara.

Isso não deve ser lido como prova de que os idosos japoneses estão bem. Os pesquisadores tinham muito mais dados sobre adolescentes do que sobre qualquer outro grupo: 104 conjuntos, contra apenas 22 de adultos e 21 de idosos. Com menos dados, fica muito mais difícil enxergar uma tendência. A resposta honesta para essas linhas é “não há evidência clara de aumento”, e não “há evidência de que não houve aumento”.

Eles também examinaram fatores que cresceram junto com a solidão no mesmo período (como a redução no tamanho das famílias e nas taxas de casamento e o tempo passado on-line). E ressaltam que são padrões que se moveram em paralelo ao longo de 40 anos, não causas do fenômeno.

O aumento começou muito antes da pandemia

Seria conveniente se a covid explicasse tudo isso, mas não explica.

Como vimos, os dados japoneses de solidão já mostravam uma tendência de alta muito antes da chegada da pandemia. Isso descarta a explicação mais óbvia para um aumento recente. O que quer que venha alimentando a solidão no Japão já agia antes de alguém ter ouvido falar no coronavírus.

Ainda assim, a pandemia deixou sua marca. As pontuações médias de solidão subiram entre 2017–19 e 2020–22, um degrau real e mensurável. Mas um degrau não é uma escada. Se você olhar apenas para os anos da covid, verá um salto. Olhando para os 40 anos anteriores, dá para ver uma tendência de alta constante, que a pandemia acelerou temporariamente.

Isso importa para a forma como o problema é entendido e discutido. Se a solidão for vista como efeito colateral de uma pandemia, a resposta pede o tamanho de uma pandemia: espere a vida voltar ao normal, e o problema vai embora. Não é isso que os dados japoneses mostram. O aumento é anterior ao vírus, e as forças por trás dele já estavam em movimento muito antes de 2020 — e não recuaram desde então.

O aumento veio dos adolescentes — não dos idosos

Os números não combinam com a história que o Japão conta sobre si mesmo. No imaginário nacional, a solidão é algo que acontece no fim da vida. Os dados dizem que ela aparece muito antes, e em pessoas que ainda têm décadas pela frente.

A tendência de 40 anos mostra quem são. O aumento aparece sobretudo entre adolescentes; adultos e idosos não respondem por nada dele. Na medida mais consistente do estudo, não há evidência clara de que os idosos japoneses tenham ficado mais solitários ao longo de quatro décadas. O grupo mais associado ao problema é justamente aquele em que a linha de tendência fica plana.

Os números oficiais do próprio Japão contam uma história parecida, com contornos ainda mais nítidos. O Cabinet Office realiza todos os anos (desde 2021) uma pesquisa com 20.000 pessoas de 16 anos ou mais, prevista em lei e feita por amostragem aleatória. Na edição de 2025, 6,1% das pessoas na casa dos 30 disseram sentir solidão frequentemente ou sempre. Entre quem está na casa dos 70, o índice foi de 2,5% — exatamente o inverso da imagem popular.

Tabela 2 — Solidão por idade e a inversão no fim da vida

IdadeSolidão frequente ou constante (2025)
16–193,3%
20–295,5%
30–396,1%
40–495,7%
50–595,7%
60–694,0%
70–792,5%
80+3,0%

Fonte: Cabinet Office of Japan, edição de 2025, n = 11.873. Pessoas com 65 anos ou mais relatam menos solidão do que qualquer outro grupo adulto — e respondem por 76,6% das mortes solitárias do país.

A solidão sobe ao longo dos 20 e dos 30 anos, se mantém estável nos 40 e nos 50 e só diminui nos 60 e nos 70.

Infográfico 1: No Japão, os mais solitários estão na casa dos 30, não na dos 70

Gráfico de barras: no Japão, 6,1% das pessoas na casa dos 30 anos sentem solidão frequentemente ou sempre, contra 2,5% na casa dos 70; a partir dos 60 anos, o índice cai para 2,5–4,0%

Vale notar que a estabilidade entre os idosos se baseia em um número muito menor de estudos do que o aumento entre os jovens; portanto, não deve ser interpretada como sinal de que eles estão bem.

Isso reformula o problema e desloca o foco para a solidão dos jovens japoneses. E deixa uma pergunta: se os jovens são o grupo mais solitário, por que as mortes solitárias do país recaem tão fortemente sobre os idosos? Vamos responder a isso mais adiante.

A pesquisa do próprio Japão diz que a solidão não se mexe desde 2021

Existe um segundo conjunto de números sobre a solidão no Japão, e ele não concorda com o primeiro.

A edição de 2025 da pesquisa oficial conduzida pelo Cabinet Office foi aplicada em dezembro e publicada em 14 de abril de 2026 — o mesmo período em que saiu a meta-análise da Chuo University.

Sua pergunta central é direta. Ela quer saber com que frequência as pessoas se sentem sozinhas e oferece cinco respostas: frequentemente, às vezes, de vez em quando, quase nunca e nunca. Em 2025, 4,5% disseram sentir solidão frequentemente ou sempre. Outros 13,7% responderam às vezes. O maior grupo, 41,6%, disse quase nunca.

O que chama a atenção não é o nível, e sim a estabilidade.

Tabela 3 — A pesquisa nacional do Japão não mostra tendência recente

Ano de aplicação20212022202320242025
Solidão “frequente ou constante”4,5%4,9%4,8%4,3%4,5%
UCLA-3, faixa mais alta (10–12)6,3%7,1%6,9%6,5%6,5%
Respostas válidas11.86711.21811.14110.87111.873

Fonte: Cabinet Office of Japan, National Survey on Loneliness and Isolation, edições 1–5. Amostra aleatória de 20.000 pessoas de 16 anos ou mais a cada ano.

A porcentagem de pessoas que relatam solidão com regularidade oscilou entre 4,3% e 4,9% — dentro da margem de erro da pesquisa — ao longo de cinco edições em cinco anos. A segunda linha conta a mesma história, mas com outro instrumento (uma versão curta, de três itens, da escala da UCLA): passou de 6,3% para 6,5% em cinco anos. Em nenhuma das duas medidas há uma tendência que indique piora.

Esse é o fato incômodo no centro do debate sobre a solidão. Os cinco anos cobertos pelos resultados da pesquisa japonesa são exatamente o período que todos imaginam ter sido o pior: a pandemia, a desorganização que veio depois e o momento em que a solidão virou prioridade oficial do governo. Mesmo assim, no próprio instrumento nacional do Japão, nada se mexeu.

Vale deixar algumas coisas claras. Isso não significa que os 4,5% de 2021 sejam baixos em termos absolutos. Um em cada vinte e dois adultos japoneses relatando solidão constante é muita gente, e a pesquisa também mostra que 37,7% relatam algum grau de solidão quando as respostas mais brandas entram na conta. Também não quer dizer que a solidão não seja um problema. Os números do próprio governo sobre mortes solitárias, que veremos adiante, tornam esse argumento impossível.

O que isso significa, basicamente, é algo mais restrito e mais útil: o principal indicador de solidão no Japão ficou estável nos últimos cinco anos, mesmo com a tendência acadêmica de longo prazo apontando para cima. As duas coisas são verdadeiras. A questão é como elas se encaixam — e a resposta diz tanto sobre a forma de medir a solidão quanto sobre o quanto o Japão é de fato solitário.

Por que duas fontes confiáveis podem discordar tanto

Os dois conjuntos de dados são sólidos, já que vêm de instituições competentes. Então como um pode mostrar um aumento de 40 anos e o outro, uma linha plana?

Primeiro, eles medem coisas diferentes, em janelas de tempo diferentes. A meta-análise reúne médias de estudos de quatro décadas e tem um peso enorme de adolescentes: 104 de seus 183 conjuntos de dados. A pesquisa do Cabinet Office acompanha uma amostra nacional aleatória ao longo de cinco anos. Um aumento longo e lento, concentrado em adolescentes, é perfeitamente compatível com uma média nacional parada numa janela curta e recente.

A segunda explicação tem a ver com poder estatístico. Onde a meta-análise não encontra mudança (entre adultos e idosos), ela trabalha com bem menos estudos. Também vale lembrar que os resultados estáveis são as conclusões menos sustentadas do estudo, e não as mais.

Em terceiro lugar, as estatísticas de solidão produzidas no Japão podem depender em parte de como a pergunta é feita. Os próprios autores da meta-análise apontam isso diretamente. Dois fatores afetaram de forma significativa as pontuações analisadas: o número de itens da escala usada e a escolha da tradução para o japonês. No caso dos adolescentes, usar a versão completa de 20 itens teve um efeito estatístico maior do que o próprio ano do estudo; o questionário pesou mais do que a década.

Os autores levantam ainda outra possibilidade, e merecem crédito por isso. Os japoneses podem simplesmente ter ficado mais dispostos a admitir a solidão nos últimos 40 anos. À medida que o tema virou uma questão pública, com um ministro nomeado para enfrentá-lo e uma lei aprovada pelo Parlamento, o estigma de dizer “eu me sinto sozinho” diminuiu. Mais solidão relatada não é necessariamente o mesmo que mais solidão.

Na única comparação limpa, o Japão é o país menos solitário

O Japão é o país mais solitário do mundo? Provavelmente você já ouviu que sim. Essa afirmação é repetida o tempo todo — e, pelas melhores evidências disponíveis, está errada.

O problema de comparar a solidão entre países é que a maioria deles faz a pergunta de formas diferentes. Em outubro de 2025, a OCDE publicou os primeiros números realmente comparáveis entre países. Ela identificou quatro países que fazem a pergunta do mesmo jeito — “quão sozinho você se sente, em geral” —, o que torna as respostas diretamente comparáveis. Os resultados não são os que o estereótipo prevê.

Tabela 4 — Na única comparação internacional limpa, o Japão tem o menor índice

PaísSente solidão frequentemente ou sempre, 2023–24
Japão5%
Inglaterra7%
Estados Unidos12%
Canadá14%

Fonte: OECD, Social Connections and Loneliness in OECD Countries, 2025. Esses quatro países fazem a pergunta com a mesma formulação; a maioria dos membros da OCDE usa outro período de referência e não é comparável.

O Japão tem o índice mais baixo dos quatro. A proporção de japoneses que relatam solidão frequente é quase três vezes menor que a de canadenses. O país que supostamente inventou a morte solitária relata menos solidão que a Inglaterra, os Estados Unidos e o Canadá na única medida que permite uma comparação justa.

Infográfico 2: Os dois países com ministro da solidão têm as menores taxas

Gráfico de barras: 5% no Japão e 7% na Inglaterra sentem solidão frequentemente ou sempre – os dois países têm um ministro da solidão –, contra 12% nos EUA e 14% no Canadá, que não têm

Esse resultado precisa ser tratado com cuidado, porque é fácil usá-lo mal. Ele não significa que o Japão não tenha um problema. Sugere, isso sim, que o problema do país não tem o formato que muitos imaginam. A solidão, tal como a população japonesa a descreve nas pesquisas, é relativamente baixa. Já o isolamento medido (morar sozinho, morrer sozinho e se retirar totalmente da sociedade) é relativamente alto. São duas coisas diferentes, e o Japão vai mal em uma e bem na outra.

Esse é o paradoxo. Um país pode ser menos solitário que seus pares e ainda assim viver uma crise de mortes solitárias, porque a solidão é o que as pessoas sentem, e o isolamento é o que acontece com elas. Os números do Japão sugerem uma sociedade em que muita gente não se sente especialmente sozinha no sentido emocional, mas em que uma minoria significativa está profundamente sozinha no sentido físico. E os dois grupos se sobrepõem menos do que qualquer um gostaria.

211 pessoas por dia são encontradas mortas sozinhas em casa

Foi esse número que fez a história correr o mundo. Em 2025, a polícia japonesa cuidou dos corpos de 76.941 pessoas que morreram sozinhas em casa. São 211 pessoas por dia, e 37,6% de todos os corpos atendidos pela polícia naquele ano.

Durante a maior parte da história moderna do Japão, esse tipo de morte não tinha nome nem contagem oficial. Era uma tragédia privada. Em 2024, a Lei sobre Solidão e Isolamento entrou em vigor, e o governo a definiu pela primeira vez. Em maio de 2025, publicou sua primeira estimativa oficial: 21.856 mortes em 2024 descobertas oito dias ou mais depois do óbito, 80% delas de homens e 70% de pessoas com 65 anos ou mais.

Os números de 2025 revelam mais. Cerca de 22.222 do total de corpos encontrados tinham ficado ao menos 8 dias sem ser descobertos. Cerca de 58.919 tinham 65 anos ou mais, 875 a mais do que em 2024. Os demais eram mais jovens.

Esse fenômeno se chama “kodokushi”. A palavra tem um peso especial no Japão. Ela descreve morrer sozinho e passar algum tempo sem ser encontrado — e o intervalo entre a morte e a descoberta é justamente o que mede o quanto uma pessoa tinha se desligado do mundo.

Vale se deter nesses intervalos. Mais de 22.000 pessoas ficaram mortas por mais de uma semana antes que alguém as encontrasse. Isso não mostra quantos japoneses se sentiam sozinhos, e sim quantos não tinham ninguém que notasse sua falta.

É aqui que as estatísticas de solidão e o kodokushi, as mortes solitárias no Japão, se separam — e esse é o ponto central de todo o assunto. As pesquisas nos dizem que os japoneses relatam relativamente pouca solidão. Os registros policiais nos dizem que milhares morrem em total isolamento. As duas coisas são verdadeiras, e é no espaço entre elas que mora a verdadeira história da solidão japonesa em 2026.

Quem morre sozinho não é quem relata solidão

Eis a contradição em sua forma mais simples. As pessoas com 65 anos ou mais relatam a menor solidão entre todos os grupos adultos do Japão. E também respondem por 76,6% das 76.941 pessoas encontradas mortas sozinhas em casa em 2025.

Os dois fatos estão lado a lado nos dados do governo, e nenhum deles é contestado. Na pesquisa de 2025 do Cabinet Office, a proporção de pessoas que sentem solidão frequentemente ou sempre foi a menor na casa dos 70 (2,5%) e a maior na casa dos 30 (6,1%). Nos números da polícia, 76,6% de quem morreu sozinho em casa tinha 65 anos ou mais.

Isso significa que solidão e isolamento são duas questões distintas. A solidão é um sentimento: a distância entre os relacionamentos que você tem e os que gostaria de ter. O isolamento é um fato das suas circunstâncias: quantas pessoas você vê, com que frequência e se alguém perceberia caso você morresse.

O Japão registra níveis relativamente baixos de solidão e um isolamento relativamente alto. É essa combinação que torna o isolamento social no país tão perigoso. Um idoso pode genuinamente não se sentir sozinho. Pode ter feito as pazes com uma vida tranquila, ou nunca ter esperado muita companhia, e ao mesmo tempo viver sem quase ninguém que passe para ver como ele está. O sentimento é administrável; as circunstâncias, não.

É por isso que as estatísticas de solidão do país, por mais cuidadosamente coletadas que sejam, não conseguem medir aquilo que mata. Uma pesquisa pode perguntar como você se sente. Não pode dizer se alguém encontraria você.

Saúde ruim multiplica a solidão por 41. Morar sozinho, por três.

Por que os japoneses se sentem sozinhos? Os dados mais úteis para responder a essa pergunta não falam de idade ou sexo, e sim de circunstâncias.

A pesquisa do Cabinet Office pergunta às pessoas como é a vida delas e depois cruza as respostas com o grau de solidão que elas relatam. Os resultados não deixam margem para dúvida. Mostram que a solidão no Japão acompanha a saúde e as dificuldades da vida muito mais de perto do que o fato de alguém morar sozinho.

Tabela 5 — Quem realmente se sente sozinho: as diferenças são enormes

CircunstânciaSolidão “frequente ou constante”Grupo de comparaçãoRazão
Saúde “não boa”32,9%“boa” 0,8%41×
Ninguém com quem desabafar23,4%tem alguém 2,5%9,4×
Ninguém para bater papo25,0%tem alguém 2,5%10×
Raramente come com alguém17,3%come com outras pessoas todo dia6,4×
Finanças “muito difíceis”14,7%“muito confortáveis” 2,9%5,1×
Desempregado11,0%empregado (efetivo) 4,5%2,4×
Divorciado / solteiro9,1% / 9,0%casado 2,4%3,8×
Mora sozinho9,8%mora com outras pessoas 3,4%2,9×

Fonte: Cabinet Office of Japan, National Survey on Loneliness and Isolation, edição de 2025. As razões são cálculos nossos a partir das porcentagens publicadas.

Olhe de novo para a primeira linha. Adultos com saúde “não boa” têm 41 vezes mais probabilidade de relatar solidão constante do que os que a descrevem como “boa”. Essa diferença é muito maior do que o aumento da solidão entre quem mora sozinho, que fica abaixo de 3 vezes.

O padrão se repete ao longo da tabela. Não ter ninguém com quem desabafar ou com quem conversar multiplica a solidão por cerca de 9,4 e 10, respectivamente. Raramente comer com outra pessoa multiplica por 6,4, enquanto o aperto financeiro a aumenta cinco vezes. Estar desempregado mais ou menos a dobra.

Isso muda a forma de entender por que os japoneses se sentem sozinhos. A explicação popular é demográfica: uma sociedade envelhecida, lares menores e mais gente morando sozinha. Mas morar sozinho acaba sendo um dos fatores de previsão mais fracos nos dados. O que pesa muito mais é se a pessoa tem saúde, tem dinheiro e tem pelo menos alguém com quem dividir uma refeição.

Isso traz uma implicação incômoda para as políticas públicas. Um governo que trata a solidão como problema de moradia, ou como consequência inevitável do envelhecimento, vai deixar de fora a maioria das pessoas que sofrem com ela. Os dados japoneses sugerem que a solidão é mais bem entendida como um problema de saúde e de desigualdade — que chega junto com a doença, a pobreza e a perda do contato humano diário, e muitas vezes passa despercebido até ser tarde demais.

A próxima pergunta é o que vem pela frente. Pelas projeções do próprio governo, o número de japoneses que moram sozinhos deve subir bastante.

44% dos lares japoneses serão unipessoais até 2050

Os números de solidão descrevem o presente; as projeções de domicílios descrevem o que está por vir.

O National Institute of Population and Social Security Research do Japão publica regularmente projeções sobre como o país vai viver. Segundo elas, os lares de uma só pessoa devem aumentar bastante: de 38% em 2020 para 44,3% até 2050, chegando a 23,3 milhões de domicílios num total de 52,6 milhões. Dentro desse total, a fatia chefiada por alguém com 65 anos ou mais vai subir de 34,9% para 46,5%.

Os idosos que moram sozinhos são o segmento que mais cresce. Em 2020, 7,37 milhões de pessoas com 65 anos ou mais viviam sozinhas, 13,2% de todos os domicílios. Até 2050, a projeção é de 10,84 milhões — 20,6% dos domicílios, um aumento de 47%.

Em outras palavras: em pouco mais de 20 anos, 1 em cada 5 lares japoneses será formado por uma única pessoa com 65 anos ou mais.

Nada disso acontece no vácuo. Acontece em um país que está se reorganizando, pouco a pouco, em unidades cada vez menores, com mais gente morando sozinha e menos gente para notá-la.

As projeções também complicam a resposta do poder público. Um governo pode financiar linhas de apoio e programas comunitários — e o Japão faz isso. Mas a linha de tendência tem a ver com a estrutura dos domicílios (casamentos mais tardios, natalidade mais baixa, vidas mais longas e filhos adultos morando cada vez mais longe dos pais). Não são questões que um ministro da solidão consiga resolver, porque não são, em essência, problemas de solidão. São o formato de uma sociedade que vem mudando há décadas.

A virada que vem aí: de viúvos para quem nunca se casou

Durante a maior parte da história moderna do Japão, um idoso que morava sozinho era quase sempre alguém que tinha sido casado e sobrevivido ao cônjuge. Não é esse o futuro que as projeções descrevem.

A proporção de japoneses com 65 anos ou mais que moram sozinhos e nunca se casaram vai crescer de forma expressiva. Entre os homens, a projeção é de alta de 33,7% em 2020 para 59,7% até 2050. Entre as mulheres, o índice deve passar de 11,9% para 30,2% no mesmo período.

Não dá para ignorar essa mudança. Uma pessoa viúva que mora sozinha normalmente ainda tem filhos, irmãos ou parentes por afinidade que acompanham sua situação e percebem quando algo não vai bem. No caso de quem nunca se casou, esses laços podem ser raros. Os muitos lares unipessoais de idosos em 2050 serão, cada vez mais, de pessoas sem nenhum parente próximo.

A razão é demográfica. A taxa de casamentos no Japão vem caindo há décadas, e as gerações que agora se aproximam da velhice têm muito mais pessoas que nunca se casaram do que qualquer geração anterior.

Hoje, os idosos viúvos são a última geração para quem a velhice no Japão costumava significar família. Os idosos que nunca se casaram, em 2050, serão a primeira para quem ela costuma significar ninguém.

O segundo país do mundo a nomear um ministro da Solidão

O Japão não caiu nesse problema sem perceber. Foi um dos primeiros governos do mundo a tratar a solidão como questão de política pública, e não como uma tristeza privada.

Em fevereiro de 2021, o Cabinet Office criou um Escritório de Medidas contra a Solidão e o Isolamento e nomeou um ministro para comandá-lo. Só o Reino Unido tinha feito algo parecido. Em junho daquele ano, durante a Loneliness Awareness Week, o primeiro ministro da solidão do Japão se reuniu on-line com seu colega britânico — um pequeno gesto de teatro diplomático que mostrava a seriedade com que Tóquio tratava o tema.

Em seguida veio a estrutura. A Lei de Promoção de Medidas contra a Solidão e o Isolamento foi aprovada em 2023 e entrou em vigor em abril de 2024. Ela atribuiu responsabilidades tanto ao governo nacional quanto aos governos locais. Os conselhos locais também passaram a ter de coordenar a oferta de apoio, e foi criada no Cabinet Office uma sede central chefiada pelo primeiro-ministro e composta por todos os ministros do gabinete.

Os resultados são mistos. A pesquisa do próprio Cabinet Office não mostra piora da solidão desde 2021 — nem melhora. Enquanto isso, as mortes solitárias continuam acima de 200 por dia. Um ministro e uma lei podem colocar a solidão no mapa. Mas não conseguem, sozinhos, voltar no tempo e reaproximar as pessoas.

Perguntas frequentes sobre a solidão no Japão

O Japão é o país mais solitário do mundo?

Não. Só 5% dos japoneses responderam que se sentem sozinhos com frequência — o índice mais baixo entre os 4 países pesquisados. Para comparar, 14% dos canadenses disseram o mesmo. O problema do Japão não é que as pessoas se sintam sozinhas; é que muitas estão isoladas.

Quantas pessoas morrem sozinhas no Japão por ano?

Cerca de 76.941 pessoas, segundo as estatísticas policiais de 2025. Dessas, 22.222 foram encontradas oito dias ou mais depois da morte, e 76,6% tinham 65 anos ou mais.

O que é kodokushi?

É 孤独死, “morte solitária”: quando uma pessoa morre sozinha em casa e passa algum tempo sem ser encontrada. Não havia definição oficial até a Lei sobre Solidão e Isolamento entrar em vigor, em abril de 2024; a primeira contagem oficial veio em maio de 2025.

Quem é mais solitário no Japão: jovens ou idosos?

Os jovens. Quem está na casa dos 30 relata solidão constante em 6,1% dos casos, contra 2,5% entre quem está na casa dos 70. O aumento dos últimos 40 anos se deu principalmente entre adolescentes.

O que é hikikomori?

É um retraimento social grave, em que a pessoa fica em casa por 6 meses ou mais sem trabalhar nem estudar. Estima-se que 1,46 milhão de pessoas de 15 a 64 anos se encaixem nessa categoria.

A solidão no Japão realmente piorou?

Em parte. Nos últimos 40 anos, os estudos acadêmicos mostram que ela piorou. Mas, nos últimos cinco anos, a pesquisa anual do próprio governo não mostra mudança. As duas coisas podem ser verdade porque medem coisas diferentes em períodos diferentes.

Nota editorial: se você se sente sozinho, existe apoio. O site do governo japonês de apoio contra a solidão e o isolamento oferece informações sobre serviços e orientação, e o TELL Lifeline presta atendimento gratuito e confidencial em inglês, quando necessário.